Brasil independente: uma história que ainda está sendo escrita
Atualizado: 8 de set.

Entrando nas redes sociais, vejo inúmeras comemorações acontecendo Brasil afora pela nossa independência.
Como é lindo um povo poder comemorar sua soberania política!
Eu me orgulho de ser brasileiro!
Mas você, que pega a bandeira, coloca o adesivo do lábaro em seu carro e, assim como eu, se orgulha da nossa pátria, reconhece a importância da independência?
Não no sentido romântico criado por aqueles que retrataram o 7 de Setembro em telas a óleo.
Não no sentido heroico de D. Pedro ao proclamar a independência, retratado nas poesias e representações construídas ao longo da nossa história.
Mas por um olhar mais profundo e nu, sem a romantização do feito e sem a necessidade de criar falsos heróis.
Porque a independência política foi um acontecimento histórico. Mas a construção de uma nação verdadeiramente soberana continua sendo uma tarefa diária.
Ainda lutamos contra formas modernas de dominação que tentam, de diferentes maneiras, submeter nossa nação aos interesses de outras potências.
Ainda lutamos para manter firme nossa democracia, porque, de tempos em tempos, alguém tenta usurpá-la, acreditando ser o herói moderno que salvará o país.
Ainda lutamos por uma reforma agrária consistente, que dê aos nossos produtores rurais terras e condições para produzir com dignidade o alimento da nação.
Ainda lutamos contra a exploração da mão de obra trabalhadora, que exaustivamente produz riquezas sem, muitas vezes, ter condições de usufruir delas para alcançar conforto e qualidade de vida.
Ainda lutamos por uma educação de qualidade que, em vez de aprisionar nossa população na ignorância, a liberte para compreender a importância da cidadania.
Ainda lutamos para que nossos impostos retornem na forma dos serviços públicos de que necessitamos, para que a igualdade social seja efetiva.
Vamos continuar lutando.
A revolução que não aconteceu em 1822 continua acontecendo no dia a dia.
Quem viveu os anos 1960, 1970, 1980 e 1990 viveu na carne as dificuldades enfrentadas pelo nosso povo. Quem nasceu depois pode encontrar essas histórias nos registros e perceber o quanto evoluímos.
Porém, não podemos descansar e esperar milagres.
Se avançamos, foi justamente porque lutamos.
Usar a bandeira ou outro símbolo nacional não torna ninguém defensor da pátria, nem tampouco patriota.
Vemos muita gente que, para alimentar suas disputas políticas, está rifando nossa pátria para outras nações pelo simples fato de não gostar de um presidente.
Tolice?
Ignorância?
Desconhecimento?
Maldade?
Talvez um pouco de tudo.
Mas talvez o problema esteja, principalmente, em não compreender que nenhum governo, nenhum presidente e nenhuma disputa política são maiores do que o próprio Brasil.
Independência não é uma fotografia
Talvez tenhamos aprendido a olhar para o 7 de Setembro como se a história tivesse terminado às margens do Ipiranga.
Não terminou.
A ruptura com Portugal foi fundamental, mas não significou liberdade para todos. O Brasil continuou convivendo com a escravidão, com a concentração de terras, com a exclusão política e com profundas desigualdades.
A Independência política foi um passo.
A construção de uma nação soberana é um processo.
E esse processo continua.
Hoje, a dominação pode assumir formas muito diferentes daquelas do período colonial. Pode estar na dependência econômica, tecnológica e científica ou na incapacidade de defender nossos próprios interesses diante das grandes potências.
Ser soberano não significa fechar as portas para o mundo.
Precisamos negociar, comerciar, cooperar e construir relações com outras nações.
Mas parceria não pode significar submissão.
Podemos ter aliados sem precisar de donos.
E é aqui que o falso patriotismo aparece
É curioso observar como algumas pessoas conseguem ser extremamente patriotas enquanto tudo acontece de acordo com seus interesses políticos.
Vestem a bandeira.
Colocam o verde e amarelo no carro.
Falam em Deus e pátria.
Mas basta não gostarem de quem ocupa a Presidência para que passem a torcer por quem está do lado de fora.
Aí, uma pressão estrangeira vira “justiça”.
Uma ameaça vira “defesa da liberdade”.
Uma interferência nos assuntos brasileiros passa a ser comemorada.
Tudo porque o alvo é um presidente ou um grupo político de que não gostam.
Isso não é patriotismo.
Nenhum presidente é o Brasil.
Nenhum partido é o Brasil.
Nenhuma ideologia é o Brasil.
Governos passam. Eleições terminam. Partidos mudam.
O país permanece.
É perfeitamente possível discordar de um governo, criticá-lo duramente, votar contra ele e até lutar pela sua mudança.
O que não faz sentido é desejar que uma potência estrangeira enfraqueça o próprio país para satisfazer uma disputa política interna.
Quando colocamos outro país acima do Brasil porque não gostamos de quem governa, talvez estejamos defendendo muita coisa. Mas certamente não estamos defendendo a independência do nosso próprio país.
Defender nossa independência não é apenas olhar para fora.
É olhar para dentro.
Um país que não investe em educação, ciência, tecnologia, indústria e infraestrutura fica vulnerável às decisões de quem investiu.
Um povo que não conhece seus direitos torna-se mais fácil de manipular.
Uma democracia enfraquecida abre espaço para salvadores que prometem resolver tudo sozinhos.
Por isso, soberania também está na escola, na universidade, no campo, na fábrica, no serviço público e na capacidade de cada cidadão compreender que seus direitos não foram presentes.
Foram conquistas.
Quem viveu os anos 1960, 1970, 1980 e 1990 sabe que muitos dos direitos que hoje parecem naturais custaram esforço, resistência e, em muitos momentos, coragem.
Quem nasceu depois pode conhecer essa história pelos registros.
Mas não pode esquecer a principal lição:
se avançamos, foi porque alguém lutou.
E ainda precisamos lutar.
Neste 7 de Setembro, portanto, podemos comemorar.
Devemos comemorar.
Mas talvez possamos fazer isso com um pouco mais de consciência.
A bandeira é nossa.
O hino é nosso.
A história é nossa.
E o futuro também precisa ser.
Patriotismo não deveria ser uma fantasia que vestimos em setembro e esquecemos em outubro.
Deveria aparecer na defesa da democracia, na valorização do trabalho, na educação, na redução das desigualdades e, principalmente, na defesa da capacidade brasileira de decidir seus próprios caminhos.
Não precisamos concordar sobre tudo.
Não precisamos gostar dos mesmos políticos.
Não precisamos pensar da mesma maneira.
Mas precisamos compreender uma coisa:
o adversário político de hoje continua sendo brasileiro amanhã.
E nenhuma potência estrangeira deveria ser colocada acima dos interesses do nosso próprio povo.
Em 1822, o Brasil declarou sua Independência.
Mais de duzentos anos depois, a história continua.
E talvez esse seja o verdadeiro significado do 7 de Setembro: a Independência que comemoramos é passado.
A soberania que defendemos é presente.
E o país que construiremos será o nosso legado.
Prof Jonas A Fusiger




Comentários