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A Sociedade do Trabalho

há 5 dias
5 min de leitura

Precarização, saúde dos trabalhadores e os desafios da organização coletiva no século XXI

Flávio Girardon

Professor da área de Ciências Humanas


As transformações ocorridas no capitalismo a partir das últimas décadas do século XX modificaram de maneira profunda o mundo do trabalho. Após um período de enorme crescimento da economia capitalista a partir do pós-guerra até meados da década de 1970, o mundo do trabalho passou a sofrer modificações em especial geradas pela crise do petróleo e a adoção das ideias neoliberais estimuladas pela Escola de Chicago.  A partir dos anos 1980 o poder das Corporações transnacionais assumiu uma escala globalizante procurando alterar as relações de trabalho em vários países passando a impor patamares salariais mais baixos, precarização nas relações trabalhistas rebaixando as condições dos trabalhadores.

          Com o avanço industrial no sul global, as práticas adotadas em vários países, inclusive o Brasil passou a ser as metas e objetivos das indústrias que tem sua origem nos países do norte global impondo ritmos absurdos de trabalho, incentivando a desorganização e enfraquecimento do movimento sindical, inclusive ameaçando trabalhadores que defendiam a mobilização da classe trabalhadora, jornadas de trabalho prolongadas, tentativas de impor agendas aos governos de plantão como uma forma de destruir conquistas trabalhistas. Partes do efeito dessa ofensiva acabaram se materializando a partir de mudanças em leis e alterações na organização do trabalho. Por outro lado, esse ritmo frenético teve o seu preço cobrado em relação as pessoas que foram obrigadas a submeter-se nesse sistema por conta da luta pela sobrevivência aonde profissionais vem sofrendo acidentes no trabalho, doenças por conta do desgaste físico e emocional encejando manifestações de adoecimento seja no setor público ou  privado. Esses processos não são novidades em nossos dias, mas no passado distante quando o mundo estava vivenciando a revolução industrial, eram comuns acidentes e problemas relativos ao trabalho, inclusive afetando a qualidade de vida das pessoas. Nas décadas seguintes com as conquistas trabalhistas, surgimento de leis que procuravam proteger o trabalhador ocorreram variações positivas nas relações de produção. Mas no final do século XX com o fortalecimento da exploração do capital objetivou-se a possibilidade de reproduzir um ambiente de geração de riqueza a todo o vapor não medindo as consequências para os trabalhadores. Aqueles que não conseguem suportar a demanda são descartados. O capital não mede seus efeitos, apenas pensa nas vantagens.

          A origem desses processos de adoecimento fizeram com que novos debates surgissem acerca de possibilidades de lutas para incrementar mudanças que pudessem oferecer melhores condições aos trabalhadores, principalmente no aspecto da carga horária de trabalho e suas consequências nas pessoas. A ampliação do trabalho de forma extensiva impulsionado pela necessidade de sobrevivência fez com que os sujeitos perdessem a capacidade de coletivização. Nos ambientes de trabalho tornou-se comum o crescente processo de individualização e a ruptura com a solidariedade, ornamentos típicos do capital e suas demandas. A sujeição e imposição de uma rigidez de produção tem negligenciado os resultados psíquicos e físicos nas pessoas criando enormes prejuízos, sendo que em alguns países devido ao excesso de trabalho e exploração, tem ocorrido suicídios por uma questão de desesperança e mascaramento de situações de sofrimento.

          Em sua lógica destrutiva, o capital não reconhece barreiras para o aumento da exploração e precarização do trabalho. Essa perseguição a resultados e produtividade aceleradas tem produzido um exército de mutilados não apenas no Brasil, mas em vários países, sujeitos que chegam em determinado momento de suas vidas e simplesmente não conseguem mais exercer o trabalho devido aos excessos e a realidade do descarte. As desigualdades do mundo do trabalho se apresentam como um desafio nos tempos modernos que exige uma nova organização dos Sindicatos e de estratégias de luta. No passado recente os processos de conquistas e reivindicações assustavam a classe empresarial, hoje a destruição do aparato que oferece segurança ao trabalhador é uma das apostas do segmento econômico com o discurso da modernidade, alterações também nos regimes de aposentadoria, influencia tecnológica e precarização sem limites.

          Recentemente foi aprovado no Congresso Nacional o fim da escala 6X1 destacando dois dias de descanso para os trabalhadores buscando envolver um ambiente mais próximo de outras iniciativas que o trabalhador possa usufruir estando mais junto de seus familiares e desenvolvendo outras habilidades. Ações que já são comumente presentes em algumas nações na escala de trabalho chega ao Brasil com um certo atraso pois na Inglaterra do século XIX já se discutia a adoção de uma escala de trabalho no modelo 5X2. Nos EUA em fins desse mesmo século, algumas empresas já praticavam o descanso em sábados e domingos e destacavam uma jornada diária de 8 horas de trabalho. Henry Ford foi o precursor dessa proposta a um século atras. A mudança no ritmo trabalhado é importante para o indivíduo, pesquisas demonstram que o trabalhador sente-se mais seguro, disposto, falta menos ao trabalho, aumenta a produtividade, além disso ter mais tempo de folga pressupõe a realização de outras atividades que podem desenvolver o cérebro, além de otimizar mudanças positivas no convívio familiar. Em outras palavras, o trabalho deve ser algo prazeroso, importante e interessante, mas o capital ao longo de sua jornada tornou o trabalho como algo pesado e difícil.

          Nesses dias que presenciamos, mesmo com todo o avanço científico, perdeu-se por outro lado a capacidade coletiva das pessoas, dissipou-se também a oportunidade de utilizarmos a tecnologia a nosso favor no que diz respeito a um aproveitamento mais produtivo de nosso tempo de vida. As necessidades impostas pelo capital, além da luta por uma jornada justa de trabalho com bons salários e a manutenção da capacidade intelectual das pessoas faz pensar também sobre outros temas que as consequências do trabalho intermitente estão gerando nas sociedades atuais. Além do aspecto da saúde física e mental, a destruição da natureza e dilapidação dos recursos naturais e minerais é outro ingrediente nefasto que o capitalismo introduziu na humanidade. Até quando o Planeta irá suportar? De que forma esse modelo de extração vai trazer benefícios para a humanidade? Nos últimos 30 anos tivemos aumentos significativos nas desigualdades sociais, crescimento abusivo da miséria em várias partes do mundo, inclusive nas nações ricas. Portanto a luta do trabalho não é apenas na jornada dos trabalhadores, mas também pela manutenção de nossa casa comum, que é o Planeta Terra. Os desafios crescem a cada momento e os líderes mundiais não conseguem cumprir os acordos estabelecidos.

          Nessas primeiras décadas do século XXI, a palavra de ordem é organizar, mobilizar, esclarecer, desenvolver o conhecimento e manter as conquistas que ainda temos sob pena de retrocedermos. Em tempos de bigtechs e governos conservadores percebemos o quanto a luta é o principal ingrediente. Um outro mundo é possível, mas para acontecer é preciso agir a partir do conhecimento.

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