A Pedagogia do Abandono
Existe um dos maiores paradoxos da política brasileira: todos afirmam defender a educação, mas poucos parecem realmente interessados na escola.
Em cada campanha eleitoral ela ocupa lugar de destaque. Surge nos programas de governo, nos debates, nas promessas e nas propagandas. Fala-se em qualidade, inovação, valorização docente, tecnologia, inclusão e futuro. Encerrada a eleição, porém, a escola desaparece. Deixa de ser prioridade e volta ao lugar que lhe foi reservado há décadas: sobreviver.
A crise da educação brasileira não decorre apenas da falta de recursos, de reformas mal concebidas ou de indicadores insatisfatórios. Ela nasce, sobretudo, do abandono. A escola pública foi deixada à própria sorte enquanto diferentes grupos políticos passaram a enxergá-la não como um patrimônio nacional, mas como um espaço conveniente para sustentar seus próprios discursos.
A direita, em grande parte de suas manifestações sobre educação, prefere identificar inimigos a enfrentar problemas. Mira suas metralhadoras no professor, desconfia da autonomia docente, reduz o debate educacional às guerras culturais e oferece respostas simples para desafios extraordinariamente complexos. Criticar o professor produz mais dividendos políticos do que discutir carreira, financiamento, formação ou aprendizagem.
A esquerda, por outro lado, insiste em atribuir à escola uma missão impossível. Trata-a como uma espécie de casa dos milagres, capaz de resolver desigualdades sociais, violência, pobreza, preconceito, desagregação familiar, exclusão, cidadania e tantos outros problemas cuja origem ultrapassa, em muito, os limites da educação. Ao exigir da escola aquilo que nenhuma instituição conseguiria entregar sozinha, acaba contribuindo para sua permanente frustração.
O centro político raramente apresenta um projeto educacional consistente. Seu silêncio é estratégico. Enquanto a escola pública perde qualidade, credibilidade e capacidade de resposta, multiplicam-se oportunidades para terceirizações, consultorias, plataformas digitais, sistemas privados de ensino e soluções vendidas como inevitáveis. Onde a política abandona um direito, o mercado rapidamente identifica uma oportunidade. E, assim, a educação deixa de ser prioridade para tornar-se oportunidade de negócio.
O resultado desse processo não é uma escola capturada. É algo talvez ainda mais grave: uma escola esquecida.
Ela permanece aberta todos os dias.
Recebe milhões de estudantes.
Mobiliza centenas de milhares de professores.
Mas deixou de ocupar o centro do projeto nacional.
No meio desse abandono permanece o professor.
A direita frequentemente o transforma em suspeito. A esquerda o transforma em solucionador universal dos problemas sociais. O centro o reduz ao custo de um sistema considerado ineficiente. Cada grupo projeta sobre ele suas expectativas, suas críticas ou seus interesses. Poucos perguntam do que ele realmente precisa para cumprir sua missão.
Hannah Arendt afirmava que educar significa assumir responsabilidade pelo mundo diante daqueles que acabam de chegar a ele. Essa responsabilidade não pode ser delegada apenas aos professores. Ela pertence à sociedade inteira.
Paulo Freire lembrava que ensinar exige rigor intelectual, diálogo e esperança crítica. Nada disso floresce em uma escola permanentemente sobrecarregada por expectativas incompatíveis com sua própria natureza.
Anísio Teixeira sonhava com uma escola pública como fundamento da democracia brasileira. Edgar Morin advertia que sociedades complexas exigem pensamento complexo, e não respostas simplistas. Pierre Bourdieu demonstrou que a educação pode reproduzir desigualdades, mas também possui força para transformá-las quando encontra condições para exercer sua autonomia.
O Brasil parece ignorar essas lições.
A direita oferece respostas simples para questões complexas. A esquerda responde com simplificações diferentes para as mesmas complexidades. No fim, todos falam para suas próprias convicções, e a educação permanece sem quem verdadeiramente a escute.
Talvez o maior equívoco seja imaginar que a escola esteja no centro das disputas políticas. Não está.
Ela está à margem delas.
É lembrada quando convém aos discursos, esquecida quando exige investimento, planejamento, continuidade e coragem para enfrentar problemas que não cabem em um mandato.
A escola não precisa de salvadores.
Também não precisa de inimigos.
Precisa, antes de tudo, deixar de ser invisível.
Porque uma sociedade que abandona sua escola não compromete apenas a qualidade da educação.
Compromete a qualidade da própria democracia.
E esse é um preço que nenhuma nação consegue pagar indefinidamente.




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