top of page

A Escola que Ouviu as Paredes

14 de ago.
2 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

A escola comemorou.

O IDEB havia chegado com um número bonito, daqueles que enchem as redes sociais de orgulho.

Vieram as postagens, os parabéns, os gráficos.

A escola acreditou que estava indo bem.

Mas escola tem paredes.

E paredes têm ouvidos.

Com os ouvidos das paredes, a escola ouviu o conselho de classe.

Ouviu o silêncio dos professores.

Ouviu a tristeza de quem precisou aprovar um aluno, mesmo sabendo que ele não tinha as condições mínimas para seguir adiante.

— Ele ainda não consegue ler e interpretar.

— Não domina operações básicas.

— Não tem condições de acompanhar a próxima etapa.

Mas era preciso aprovar.

E a escola ouviu.

Depois, com os ouvidos das paredes das salas de aula, começou a escutar a realidade que os números escondiam.

Ouviu professores retomando conteúdos que já deveriam ter sido aprendidos anos antes.

Ouviu perguntas que revelavam enormes defasagens.

Ouviu alunos tentando acompanhar aulas para as quais ainda não tinham os conhecimentos necessários, aprovados anteriormente sob pressão, carregando para a sala de aula lacunas que não eram suas escolhas, mas que agora cobravam deles um preço alto demais.

E começou a entender.

O número que havia celebrado não contava aquela história.

O gráfico não mostrava a angústia dos professores.

A publicação não mostrava as dificuldades dos alunos.

O índice não ouvia as paredes.

A escola, sim.

E quanto mais ouvia, mais percebia que estava vivendo uma ilusão.

Uma ilusão perigosa.

Porque, enquanto comemorava seus números, crianças e jovens avançavam sem carregar aquilo que deveriam ter aprendido.

Foi então que a escola sentiu uma tristeza que nenhum gráfico conseguiria medir.

Percebeu que, em vez de alicerçar e fortalecer sonhos, estava ajudando a matar o futuro daqueles que nela haviam confiado.

Comentários


bottom of page