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A cada divulgação do IDEB, repete-se o mesmo ritual

11 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

Prefeitos comemoram. Governadores gravam vídeos. Secretários de Educação exibem gráficos coloridos. Manchetes anunciam avanços históricos. A impressão transmitida é a de que a educação brasileira caminha, finalmente, para um futuro promissor.

Mas basta entrar em uma sala de aula para perceber que existe algo profundamente errado.

Os números sobem.

O conhecimento, nem sempre.

Essa é a grande contradição da educação brasileira.

Enquanto os indicadores apontam evolução, cresce o número de estudantes que concluem etapas da educação básica sem dominar competências elementares. Jovens chegam ao Ensino Médio com dificuldades severas de leitura e interpretação. Outros concluem essa etapa sem conseguir produzir um texto consistente ou resolver problemas matemáticos básicos.

Não são casos isolados.

Quem vive o cotidiano escolar sabe que essa realidade está longe de ser exceção.

Então surge a pergunta inevitável: se tantos estudantes avançam carregando lacunas tão profundas, o que exatamente os indicadores estão medindo?

Talvez a resposta seja desconfortável.

Talvez estejamos medindo muito mais a eficiência de um sistema em produzir bons índices do que sua capacidade de produzir aprendizagem.

O IDEB nasceu como uma ferramenta importante. Avaliar políticas públicas é necessário. Medir resultados também.

O problema começa quando o indicador deixa de ser instrumento e passa a ser objetivo.

Nesse momento, a educação corre um enorme risco.

A preocupação deixa de ser formar cidadãos e passa a ser apresentar resultados capazes de alimentar discursos políticos.

Os números deixam de retratar a realidade.

Passam a maquiá-la.

O indicador deixa de servir ao diagnóstico da educação para servir à construção de narrativas de sucesso que não resistem ao cotidiano das salas de aula.

Ao final de cada trimestre, multiplicam-se discussões sobre reprovação, índices de aprovação e metas administrativas. Os conselhos de classe, que deveriam ser espaços de reflexão pedagógica, transformam-se em ambientes onde estatísticas ocupam mais espaço do que o próprio processo de aprendizagem.

Pouco importa perguntar por que determinado estudante não aprendeu.

A preocupação costuma ser outra: qual será o impacto daquela decisão nos indicadores da escola?

Esse talvez seja o maior problema do modelo atual.

Quando um sistema passa a premiar números, inevitavelmente começa a produzir números.

Ainda que isso não represente aprendizagem.

Nenhuma estatística consegue esconder a realidade de um estudante que termina o Ensino Médio sem compreender plenamente aquilo que lê.

Nenhum gráfico altera o fato de que milhares de jovens ingressam no mercado de trabalho ou no ensino superior sem os conhecimentos mínimos esperados após mais de uma década de escolarização.

Nenhuma cerimônia oficial muda essa realidade.

Porque o conhecimento não se produz por decreto.

Muito menos por planilhas.

É claro que existem excelentes escolas, equipes comprometidas e experiências extraordinárias espalhadas pelo país. Elas existem e merecem reconhecimento.

Mas também existe uma estrutura que, cada vez mais, parece valorizar aquilo que é facilmente mensurável, mesmo quando o essencial permanece invisível.

Aprender exige tempo.

Exige investimento.

Exige professores valorizados, escolas estruturadas, acompanhamento pedagógico, participação das famílias e políticas públicas consistentes.

Nada disso cabe em um único indicador.

Quando a complexidade da educação é reduzida a um número, cria-se uma ilusão conveniente.

Os problemas deixam de existir porque deixaram de aparecer nas estatísticas.

É uma maquiagem eficiente.

Os índices melhoram.

Os discursos tornam-se otimistas.

As administrações celebram.

Mas os estudantes continuam chegando às universidades, aos cursos técnicos e ao mercado de trabalho trazendo consigo deficiências que deveriam ter sido enfrentadas muitos anos antes.

E a conta dessa ilusão não aparece no relatório do IDEB.

Ela aparece na sala de aula da universidade.

Na dificuldade de formação profissional.

Na baixa produtividade.

Na desigualdade social que se perpetua.

Na frustração de milhares de jovens que descobrem, tarde demais, que possuir um certificado não significa possuir o conhecimento que esse certificado deveria representar.

Talvez seja justamente essa a pergunta que deveria orientar o debate nacional.

Não se o IDEB aumentou.

Mas se nossos estudantes realmente aprenderam.

Porque indicadores existem para revelar a realidade.

Nunca para substituí-la.

Quando um país começa a confundir estatística com educação, corre o risco de construir escolas que produzem excelentes números, enquanto deixam de formar pessoas.

E esse é um fracasso que gráfico algum consegue esconder.

Prof. Jonas A Fusiger

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