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Da garrafa de água ao medo: quem está ensinando a atacar os professores?

4 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

Há alguns dias, um professor abriu sua garrafa de água e encontrou um pedaço de vidro em seu interior.

Não era uma brincadeira.

Não era uma travessura.

Era uma agressão.

Uma tentativa deliberada de transformar um objeto comum em uma arma contra alguém que entrou naquela sala apenas para ensinar.

Dias depois, outra notícia nos deixou perplexos. Cerca de vinte policiais fortemente armados entraram em uma escola para cobrar explicações da diretora por um desenho produzido durante uma atividade sobre cultura africana. Independentemente das investigações posteriores, a cena por si só já representa algo profundamente preocupante: a escola deixou de ser vista como um espaço de construção do conhecimento e passou a ser tratada como um ambiente sob permanente suspeita.

Os dois episódios parecem diferentes.

Não são.

Eles nascem da mesma raiz.

Há muito tempo o professor deixou de ser atacado apenas quando sofre uma agressão física. Antes do empurrão, da ameaça ou da violência, existe um processo lento de destruição da sua autoridade moral.

Primeiro, dizem que o professor não trabalha.

Depois, que doutrina.

Em seguida, que precisa ser vigiado.

Que deve ser filmado.

Que não merece confiança.

Que qualquer pessoa pode julgá-lo, acusá-lo ou condená-lo sem conhecer um minuto da realidade vivida dentro de uma sala de aula.

Poucos conhecem o que realmente significa ser professor hoje.

Não conhecem as turmas superlotadas.

Não conhecem a inclusão sem estrutura.

Não conhecem o aluno que chega com fome, o adolescente adoecido emocionalmente, a violência que atravessa os portões da escola, as famílias desestruturadas, a falta de profissionais de apoio, as cobranças por resultados cada vez maiores e as condições de trabalho cada vez menores.

Mas conhecem muito bem a facilidade de apontar o dedo.

Transformou-se em hábito culpar o professor por tudo.

Se o aluno não aprende, a culpa é do professor.

Se a educação enfrenta dificuldades, a culpa é do professor.

Se há problemas sociais, novamente a culpa recai sobre quem está na sala de aula.

É mais fácil encontrar um culpado do que enfrentar as verdadeiras causas do fracasso educacional.

Enquanto isso, quem dedica a vida a ensinar vai sendo desumanizado.

E quando um professor deixa de ser visto como um profissional digno de respeito, qualquer agressão passa a parecer aceitável.

É assim que um aluno coloca vidro dentro de uma garrafa de água.

É assim que uma diretora é tratada como suspeita antes mesmo de ser ouvida.

É assim que professores passam a trabalhar olhando para a porta da sala com mais preocupação do que para o quadro.

Não estamos falando apenas de violência.

Estamos falando de medo.

Estamos falando de uma profissão que está deixando de inspirar orgulho para inspirar insegurança.

E talvez o mais grave seja o silêncio.

Silêncio de autoridades que deveriam defender seus educadores.

Silêncio de parte da sociedade, que assiste a tudo como se fossem episódios isolados.

Não são.

São sinais de que estamos rompendo um pacto fundamental: o respeito por quem ensina.

Uma sociedade pode sobreviver sem muitas coisas.

Mas jamais sobreviverá quando transformar seus professores em inimigos.

Porque toda vez que um professor é humilhado, ameaçado ou desacreditado, não é apenas um trabalhador que perde.

Perde a escola.

Perdem os alunos.

Perdem as famílias.

Perde o conhecimento.

Perde o futuro.

Ainda estamos discutindo quem venceu as disputas ideológicas, enquanto a educação vai perdendo seus profissionais para o medo, para o adoecimento e para o desencanto.

A pergunta que fica é simples.

Se hoje já encontramos vidro na garrafa de água de um professor, o que estaremos encontrando amanhã dentro das nossas escolas?

Talvez a resposta dependa da coragem que tivermos, agora, de defender quem nunca deixou de defender o futuro de todos nós.

 

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