top of page

O toque do celular

6 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

A campainha toca.

Os corredores voltam a se encher de passos apressados. Mochilas balançam nos ombros, vozes se cruzam, risadas escapam pelas portas abertas. A escola, aos poucos, vai ficando em silêncio.

Ela permanece mais alguns minutos.

Fecha o livro. Recolhe os cadernos deixados sobre a mesa. Apaga as últimas palavras escritas no quadro. Confere se as janelas estão fechadas. Apaga a luz.

Mais um dia de trabalho.

Pelo menos era o que imaginava.

Em casa, tira os sapatos, coloca a bolsa sobre a cadeira e respira fundo. O silêncio do lar costuma ser um abraço depois de um dia inteiro dividindo a atenção entre perguntas, dúvidas, conversas e sonhos adolescentes.

Então o celular vibra.

Ela sorri por um instante, imaginando que seja uma mensagem da família.

Não era.

As palavras que aparecem na tela não perguntam. Não conversam. Não procuram entender.

Acusam. Ameaçam.  Intimidam. 

Ela lê uma vez. Depois outra.

Como se, na segunda leitura, as palavras pudessem se tornar menos cruéis.

Não se tornam.

A mão demora para soltar o telefone.

O coração acelera quando outra notificação chega.

Ela pensa em responder.

Escreve uma frase.

Apaga. Escreve outra. Apaga de novo.

Percebe que existem violências que não procuram diálogo. Procuram apenas ferir.

Deixa o celular sobre a mesa como quem afasta um objeto que pode machucar.

Prepara o jantar.

Não sente o gosto da comida.

Liga a televisão.

Não consegue dizer, mais tarde, o que estava passando.

Abre um livro.

Lê a mesma página três vezes.

A cada vibração do telefone, o corpo inteiro enrijece.

Já não era apenas um aparelho.

Era a lembrança de que alguém havia encontrado o caminho até sua casa.

Naquela noite, ela dorme pouco.

E, quando consegue dormir, acorda antes do despertador.

Levanta sem pressa.

Veste a roupa de sempre.

Separa os livros da primeira aula.

Tudo parece igual.

Mas nada é igual.

Antes de sair, olha o celular por alguns segundos.

Pensa em deixá-lo em casa.

Desiste.

Fecha a porta.

Enquanto caminha até o carro, olha discretamente para os dois lados da rua.

Nunca havia feito isso.

No caminho para a escola, diminui a velocidade mais de uma vez.

Olha pelo retrovisor.

Depois olha outra vez.

Quando estaciona, permanece sentada.

As mãos continuam sobre o volante.

Ela conhece aquele lugar há anos.

Conhece cada árvore, cada corredor, cada sala.

Mesmo assim, pela primeira vez, sente receio de atravessar o portão.

Não por causa dos alunos.

Nunca por causa deles.

O medo tem outro rosto.

Ela se pergunta se alguém estará esperando por ela.

Se será reconhecida no caminho de volta para casa.

Se o telefone tocará outra vez.

Se cumprir o dever de orientar, corrigir e estabelecer limites passou a ser motivo suficiente para viver com medo.

Respira fundo.

Pega os livros.

Desce.

Cumprimenta os colegas com um sorriso que já não consegue esconder o cansaço.

Alguns alunos lhe desejam bom-dia.

Ela responde como sempre respondeu.

Nenhum deles percebe que, naquela manhã, a professora caminhava carregando um peso que não cabia na mochila.

A campainha toca novamente. A aula começa.

Ela escreve a primeira palavra no quadro.

Enquanto explica o conteúdo, faz o que sempre fez: escuta, orienta, corrige, incentiva, acolhe.

Quem a observa talvez veja apenas uma professora trabalhando.

Ninguém imagina o esforço necessário para permanecer ali.

Ninguém imagina que, na noite anterior, ela teve medo do toque de um celular.

Ninguém imagina que, por alguns instantes, pensou se valia a pena continuar.

Mas continua.

Porque ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdos.

É acreditar, todos os dias, que vale a pena formar pessoas.

Mesmo quando algumas delas já esqueceram o que significa respeitar quem as ajuda a crescer.

Ao final da aula, os alunos recolhem seus materiais.

Ela apaga o quadro mais uma vez.

Olha, quase sem querer, para o celular sobre a mesa.

A tela permanece apagada.

E, pela primeira vez desde a noite anterior, ela respira um pouco mais aliviada.

Não porque o medo tenha ido embora.

Mas porque descobriu que a coragem nem sempre é a ausência do medo.

Às vezes, coragem é simplesmente abrir a porta da sala de aula outra vez. E ensinar.

Comentários


bottom of page