Você escolhe seu voto. Sua classe social não.
Atualizado: 8 de set.
Os debates políticos transformaram "esquerda" e "direita" em simples rótulos eleitorais. Pergunta-se em quem alguém vota, mas raramente se pergunta de que forma essa pessoa vive.
Os termos surgiram na Revolução Francesa de 1789. À direita sentavam-se os defensores da manutenção dos privilégios da monarquia e da nobreza; à esquerda, aqueles que defendiam mudanças e maior igualdade. Desde então, muita coisa mudou, mas uma questão permaneceu no centro da política: quem produz a riqueza e quem se apropria dela?
A política não começa nos partidos. Ela começa na estrutura da sociedade.
Em toda economia existem pessoas cuja sobrevivência depende essencialmente do próprio trabalho e pessoas cuja renda provém predominantemente do patrimônio e do capital. Essa é uma diferença econômica, não moral.
Mas é preciso desfazer um equívoco comum: nem todo empresário pertence à elite econômica. O pequeno comerciante, o agricultor, o profissional liberal, o microempreendedor ou o dono de uma pequena empresa geralmente não vivem da renda do capital. Vivem do próprio esforço. Se deixarem de trabalhar, sua renda desaparece ou diminui drasticamente. Embora sejam proprietários, continuam dependentes do trabalho cotidiano para sustentar suas famílias.
A grande diferença está naqueles que podem viver essencialmente da renda do patrimônio, dos grandes investimentos ou de empresas que funcionam independentemente de sua presença diária. Nesses casos, é o capital que produz a renda; nos demais, é o trabalho.
Essa distinção ajuda a compreender outro fenômeno: classe social não é uma identidade, mas uma condição objetiva. Ela não é definida pelo discurso, pelo partido ou pelo voto. É definida, principalmente, pela forma como cada pessoa obtém sua renda.
Então por que tantos trabalhadores afirmam ser de direita?
As respostas são diversas. Alguns priorizam valores culturais, religiosos ou questões relacionadas à segurança pública. Outros acreditam sinceramente que determinadas políticas econômicas produzirão benefícios para toda a sociedade. Há ainda aqueles que passam a se identificar com a condição social que desejam alcançar, e não com aquela em que efetivamente vivem. Projetam em si a imagem de quem um dia pretendem ser e, a partir dessa expectativa, adotam valores, discursos e posições políticas associados a esse grupo. O desejo de prosperar é legítimo e faz parte da experiência humana. Entretanto, enquanto a própria renda continuar dependendo essencialmente do trabalho, a condição objetiva dessa pessoa permanece a mesma. Aspirações podem transformar projetos de vida, mas não alteram, por si sós, o lugar que se ocupa na estrutura econômica da sociedade.
Não há problema em desejar prosperar, empreender ou construir patrimônio. A busca por melhores condições de vida é legítima e faz parte das aspirações de qualquer pessoa. O problema surge quando esse desejo faz com que alguém deixe de reconhecer a realidade em que vive e passe a agir politicamente como se já ocupasse uma posição econômica que ainda não possui. Quando a identidade desejada se sobrepõe à condição objetiva, abre-se espaço para uma distorção da realidade. E essa distorção pode conduzir à defesa de políticas que, embora pareçam representar um caminho para o sucesso individual, acabam contrariando os interesses materiais de quem continua dependendo essencialmente do próprio trabalho. Em vez de ampliar oportunidades, essas escolhas podem contribuir para a manutenção ou até mesmo para o agravamento das desigualdades que afetam justamente aqueles que acreditam não fazer parte delas.Talvez a pergunta mais importante da política não seja: "Você é de esquerda ou de direita?"
Talvez seja outra:
Se você deixar de trabalhar amanhã, continuará vivendo apenas da renda do seu patrimônio?
Se a resposta for não, sua vida continua dependendo fundamentalmente do trabalho. E essa condição o aproxima de milhões de pessoas que compartilham desafios semelhantes, independentemente do cargo que ocupam, da profissão que exercem ou do partido em que votam.
Compreender isso não obriga ninguém a mudar suas convicções políticas. Apenas nos convida a refletir sobre uma questão frequentemente esquecida: antes de escolhermos um lado no debate político, já ocupamos um lugar na estrutura econômica da sociedade. E esse lugar influencia nossos interesses muito mais do que os rótulos que escolhemos para nós mesmos.


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