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Antes da urna

31 de jul.
3 min de leitura

Atualizado: 8 de set.

Na sexta-feira antes da eleição, ele abriu a pequena empresa como fazia havia quinze anos.

Às sete horas, os oito funcionários já estavam ali.

João foi o primeiro a chegar, como sempre.

Carlos entrou reclamando do frio.

A Ana trouxe um bolo ainda fresco. Tinha acordado mais cedo para terminá-lo antes de sair de casa.

Enquanto o café passava, a conversa tomou o rumo inevitável.

A eleição.

Ele falava com segurança.

Era empresário.

Acreditava que o país precisava de menos burocracia, menos direitos trabalhistas, menos assistência social e menos impostos para quem empreendia.

Repetia, quase sem perceber, uma frase que ouvira tantas vezes:

— As pessoas precisam aprender a pescar. Não adianta entregar o peixe.

Os funcionários ouviam.

Alguns concordavam.

Outros apenas balançavam a cabeça.

No fim da conversa, quase todos disseram que votariam nos mesmos candidatos.

Ele sorriu.

Sentia que estava ajudando.

No domingo, votaram.

Naquela noite, acompanhou a apuração pela televisão.

A cada resultado confirmado, sentia que havia feito a escolha certa.

Os candidatos em quem acreditava venceram.

Na segunda-feira voltou para a empresa com um entusiasmo diferente.

Agora, pensava, quem trabalha e empreende finalmente seria reconhecido.

Os meses passaram.

Vieram novas leis.

Novos programas.

Novos discursos.

Ele acompanhava tudo com esperança.

Afinal, aquelas mudanças haviam sido feitas para empresários como ele.

Até que chegou outra segunda-feira.

A mesa da cozinha amanheceu coberta de planilhas.

Passara o domingo inteiro tentando encontrar uma saída.

As vendas caíram.

O banco recusou o financiamento.

As linhas de crédito anunciadas não chegaram para empresas do tamanho da sua.

Os juros eram altos demais.

A conta não fechava.

Respirou fundo.

Precisaria demitir dois dos oito funcionários.

Chamou João.

Ele entrou sorrindo.

Achava que seria mais uma conversa sobre entregas ou prazos.

Quando ouviu a notícia, ficou alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou, quase num sussurro:

— Fiz alguma coisa errada?

Ele sentiu a garganta apertar.

Baixou os olhos.

— Não, João.

O problema não foi você.

João saiu devagar.

Ao passar pelo pátio, cumprimentou os colegas como fazia todas as manhãs.

Nenhum deles imaginava que, dali a pouco, outra família também receberia a mesma notícia.

Sozinho na sala, ele permaneceu olhando pela janela.

Carlos descarregava mercadorias.

Ana organizava o café que ninguém mais teria vontade de tomar.

Foi então que uma pergunta apareceu.

Quem comprava os produtos da sua empresa?

Não eram grandes grupos econômicos.

Não eram fundos de investimento.

Eram trabalhadores.

Eram aposentados.

Eram famílias que dependiam do salário no fim do mês.

Pessoas que compravam quando tinham emprego.

Quando tinham renda.

Quando tinham alguma segurança para gastar.

Naquele instante, outra lembrança voltou.

Ele dizia que assistência social criava dependência.

Que direitos trabalhistas atrapalhavam quem empreendia.

Mas, sem perceber, passara anos vendendo justamente para pessoas cuja renda, estabilidade e capacidade de consumo sustentavam empresas como a sua.

E quando precisou de ajuda, descobriu que também não era tratado como os grandes empresários.

Não tinha acesso ao crédito fácil.

Não tinha poder para negociar.

Não tinha reservas suficientes para atravessar meses difíceis.

Se fechasse a empresa no dia seguinte, continuaria precisando acordar cedo para trabalhar.

Como João.

Como Ana.

Como Carlos.

Como milhões de brasileiros.

Naquela tarde, enquanto apagava as luzes da empresa, compreendeu que nunca vivera da renda do capital.

Sempre vivera do próprio trabalho.

Seu patrimônio não produzia riqueza sozinho.

Era ele quem abria o portão todas as manhãs.

Era ele quem atendia clientes, negociava com fornecedores, fazia contas e resolvia problemas.

Percebeu, tarde demais, que passara anos olhando para a realidade como se já ocupasse um lugar que ainda não era o seu.

Sonhar em crescer nunca foi o erro.

O erro foi deixar que o sonho falasse mais alto do que a vida que realmente levava.

Fechou o portão.

Olhou novamente para a placa da empresa.

Pela primeira vez, entendeu que sua história tinha muito mais em comum com a de João do que com a daqueles que imaginara representar.

E descobriu que ninguém muda de classe social apenas porque acredita que um dia chegará lá.

A realidade continua esperando na manhã seguinte.

Às sete horas.

Do outro lado do portão.

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