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Quem Paga o Preço?

9 de set.
3 min de leitura

Naquele dia, chegou cedo e animado ao trabalho.

Sabia que sua função de servidor público ajudava muitas pessoas. Seu trabalho, ainda que muitas vezes invisível, contribuía para a segurança, o bem-estar e a qualidade de vida de muita gente.

Bateu o ponto, organizou os equipamentos e esperou a primeira ordem de serviço.

Não demorou muito.

A tarefa era um reparo na iluminação pública de uma rua do bairro Bom Fim.

Junto com outros colegas da manutenção pública, pegou os equipamentos e os poucos insumos disponíveis. Embarcaram no caminhão e seguiram para o local.

Era, em princípio, um serviço simples.

Ele subiu no cesto do caminhão.

Antes que o braço mecânico começasse a erguê-lo, porém, olhou para a estrutura onde estava apoiado. Sentiu um certo temor. O cesto apresentava rachaduras e danos. Não parecia oferecer a segurança necessária.

Pensou na esposa.

Pensou nos filhos.

E pensou no que poderia acontecer se aquela estrutura cedesse.

Encorajou-se.

Afinal, precisava fazer o seu trabalho.

Enquanto o braço mecânico o levava até a luminária, a apreensão aumentava. O que lhe causava medo não era a altura, mas a consciência de que sua vida estava nas mãos de um equipamento que já deveria ter sido reparado ou substituído.

Aquela situação não era novidade.

Ele já havia alertado as chefias várias vezes. Já havia pedido providências e cobrado melhores condições de trabalho.

Não conseguiu.

Ou melhor, conseguiu um processo administrativo por insubordinação.

Mesmo assim, continuou.

Abriu a estrutura da luminária, realizou os testes e constatou que o problema não estava na lâmpada.

Era outra peça.

— Me alcança a peça para fazer a substituição — pediu ao colega.

A resposta veio de baixo:

— Não tem peça nova.

Por alguns segundos, ficou em silêncio.

Dias antes, ele e outros servidores haviam informado à chefia sobre a necessidade de adquirir insumos para a manutenção da iluminação pública. A peça que agora precisava estava entre eles.

Todos sabiam.

Todos haviam avisado.

Mas ela não estava lá.

A equipe recolheu os equipamentos e seguiu para atender outras ordens de serviço.

A lâmpada continuaria apagada.

E talvez ninguém soubesse por quê.

Talvez alguém reclamasse à noite. Talvez dissesse que o servidor não fazia seu trabalho. Talvez até culpasse quem estava na ponta.

Mas quase ninguém saberia que, naquela manhã, um servidor havia subido em um cesto rachado para tentar resolver o problema.

Não saberia que a peça necessária havia sido solicitada dias antes.

Não saberia que o serviço não deixou de ser feito por falta de vontade, conhecimento ou disposição.

Faltaram condições.

E é aí que a história deixa de ser apenas sobre uma lâmpada.

Porque, quando o serviço público apresenta problemas, quase sempre é fácil enxergar o que não foi feito. Mais difícil é enxergar aquilo que faltou para que fosse realizado.

Faltou equipamento adequado.

Faltou segurança.

Faltou insumo.

E, muitas vezes, quando os servidores se organizam e o sindicato cobra melhores condições de trabalho, a cobrança é tratada como problema, quando deveria ser vista como defesa de quem trabalha e de quem depende do serviço público.

No discurso, todos querem eficiência.

Na prática, eficiência também significa oferecer condições para que o servidor possa trabalhar.

Aquela lâmpada não acendeu naquela noite.

Mas talvez tenha iluminado uma verdade que costuma ficar escondida: não se pode exigir um serviço público de qualidade sem garantir condições dignas e seguras para quem o executa.

No dia seguinte, ele estaria novamente lá.

Cedo.

Com seu uniforme.

Pronto para outra ordem de serviço.

Porque servidor público continua.

Mesmo quando falta quase tudo.

E talvez seja justamente por isso que, antes de apontar para quem está no cesto, seja preciso olhar para quem deveria ter garantido que ele pudesse subir com segurança.

 

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