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O Vendedor de Certezas

24 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 6 de out.

Meu pai costumava dizer que desconfiava de quem respondia depressa demais.

Quando eu era guri, não entendia muito bem. Achava bonito o sujeito que, diante de qualquer problema, já tinha uma resposta na ponta da língua. Enquanto os outros ainda tentavam entender o que estava acontecendo, ele já sabia quem era o culpado, qual era o caminho e o que precisava ser feito. Falava com uma segurança que dava até inveja.

Hoje entendo melhor. A dúvida incomoda. O erro, às vezes, até a gente aceita. Mas dizer “não sei” é outra coisa. Obriga a pensar. Obriga a esperar. Obriga a admitir que talvez não exista uma resposta pronta ou uma solução imediata.

Já o sujeito que diz “deixa comigo” oferece uma coisa muito mais confortável: descanso.

Talvez seja por isso que, de tempos em tempos, apareça alguém num palanque dizendo que sabe exatamente como consertar o país.

Segurança? Resolve.

Economia? Resolve.

Educação? Resolve.

Corrupção? Também.

Tudo parece caber em meia dúzia de frases. Não é preciso explicar muito. Basta falar firme, apontar um culpado e prometer que, em sua administração, tudo vai ser diferente.

E nós ouvimos.

O problema é que quase nunca perguntamos o que vem depois do aplauso.

Como vai fazer?

Quanto vai custar?

Quem vai pagar?

O que acontece se não funcionar?

E se funcionar de um jeito diferente do que foi prometido?

São perguntas simples. Mas, no meio de uma campanha, parecem até inconvenientes e ofensivas.

Talvez porque, quando estamos cansados, com medo ou decepcionados, não queremos ouvir que o problema é complicado. Queremos alguém que diga que existe uma saída. E, de preferência, que ela seja simples.

Uma pessoa cansada da violência quer acreditar que existe um jeito rápido de acabar com ela. Uma família preocupada com o futuro do filho quer acreditar que alguém pode colocar a educação nos trilhos de uma hora para outra. O trabalhador(a) que chega à terceira semana do mês contando os trocados quer acreditar que basta mudar quem está no poder para a vida melhorar.

Então aparece o candidato.

Ele fala com convicção. Escolhe um culpado. Pega um exemplo de outro lugar, mostra um número que parece provar sua tese e, em poucos minutos, transforma um problema enorme numa história simples.

É tentador.

E talvez seja justamente aí que mora o perigo.

Porque nem sempre acreditamos no que foi provado. Muitas vezes acreditamos no que gostaríamos que fosse verdade.

Não acho que isso seja apenas ignorância. Seria fácil demais dizer isso. Às vezes é cansaço. Às vezes é medo. Às vezes é raiva. Às vezes é simplesmente a vontade de encontrar alguém que diga: “deixa que eu resolvo”.

Só que país não é gaveta bagunçada. Não existe uma chave escondida que, encontrada pela pessoa certa, faça tudo funcionar.

E quando começamos a acreditar que existe, passamos a escolher não quem tem as melhores respostas, mas quem sabe contar melhor a história que queremos ouvir.

Aí já não importa muito se é direita, esquerda ou qualquer outra coisa. Quando a vontade de acreditar fica maior que a disposição de conferir, qualquer lado pode vender ilusão.

No fim, a campanha termina. O carro de som vai embora. As bandeiras desaparecem das ruas. O palanque é desmontado.

E a vida continua.

Só que o problema que parecia tão simples continua lá.

E, desta vez, somos nós que precisamos pagar para descobrir que a promessa era mais fácil do que a realidade.

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