Entre o Milagre e a Realidade
Atualizado: 8 de set.
A eleição produz uma curiosa ilusão: a de que os problemas de uma sociedade complexa podem ser resolvidos por respostas simples, pronunciadas com convicção suficiente para parecerem verdadeiras.
É nesse terreno que prosperam determinados candidatos. Prometem combater a criminalidade, reconstruir a economia, recuperar a educação, acabar com a corrupção. Tudo parece possível — até que alguém faça duas perguntas elementares: como? E, sobretudo, com quais condições, custos e consequências?
Em uma sabatina, muitas dessas certezas desmoronam rapidamente.
É o caso de quem apresenta El Salvador como modelo pronto para o Brasil. O argumento parece irrefutável quando reduzido a um vídeo: adotou-se uma política extremamente dura, a violência caiu e, portanto, bastaria fazer o mesmo aqui. Mas quando se pergunta se as mesmas medidas poderiam ser reproduzidas integralmente no Brasil, considerando nossa Constituição, dimensão territorial, estrutura institucional, sistema prisional e realidade social, a resposta frequentemente deixa de ser tão categórica.
O mesmo fenômeno aparece agora na exaltação do Paraguai como uma espécie de nova referência de prosperidade. Durante muito tempo, esse papel pertenceu aos Estados Unidos. O problema é que exemplos estrangeiros, quando retirados de seu contexto histórico, econômico e institucional, transformam-se facilmente em propaganda. Escolhe-se aquilo que confirma a tese e silenciam-se as variáveis que poderiam contradizê-la.
É assim que funciona a política quando se transforma em mercado de ilusões: o vendedor seleciona a realidade que interessa e o comprador adquire o milagre que deseja.
O eleitor também precisa ser questionado
É confortável responsabilizar exclusivamente os políticos pela degradação do debate público. Eles, evidentemente, têm enorme responsabilidade. Mas existe também uma responsabilidade do eleitor: a disposição de acreditar sem verificar.
Uma sociedade intelectualmente saudável não deveria considerar uma informação verdadeira porque ela foi repetida milhares de vezes nas redes sociais. Tampouco deveria rejeitar estudos científicos simplesmente porque seus resultados contrariam convicções pessoais.
Vivemos um período em que grupos inteiros passaram a consumir informação dentro de bolhas nas quais só circula aquilo que confirma suas crenças. O algoritmo oferece a cada indivíduo uma versão conveniente do mundo — e, depois de algum tempo, essa versão passa a ser confundida com a própria realidade.
Os exemplos recentes são constrangedores demais para serem ignorados.
Tivemos pessoas pedindo intervenção militar para solucionar uma crise política; gente rezando diante de pneus; outras esperando uma intervenção extraterrestre; circulando informações absurdas sobre tratamentos e até pessoas chegando ao ponto de ingerir detergente por acreditar em promessas sem qualquer fundamento científico.
É fácil rir desses episódios.
Mais difícil é reconhecer o fenômeno intelectual que eles revelam: uma parcela da sociedade tornou-se vulnerável à substituição da razão pela crença quando a crença oferece exatamente aquilo que deseja ouvir.
E isso não é um problema exclusivamente ideológico. A irracionalidade não pertence a um espectro político. Ela aparece à direita, à esquerda e no centro sempre que a convicção passa a valer mais do que a evidência.
A nostalgia também fabrica seus milagres
O mesmo mecanismo explica a romantização do regime militar.
Há quem descreva aquele período como uma época de ordem, segurança e prosperidade, como se a história pudesse ser reduzida a uma lembrança seletiva.
Mas uma sociedade intelectualmente honesta precisa perguntar: ordem para quem? Liberdade para quem?
Não se pode discutir aquele período ignorando censura, perseguições, prisões, torturas, mortes, desaparecimentos e famílias destruídas pela repressão política. Tampouco é necessário negar os problemas atuais para compreender que democracia, apesar de suas imperfeições, é precisamente o espaço institucional que permite que esses problemas sejam enfrentados sem entregar ao Estado o direito de eliminar a divergência pela força.
A memória seletiva também é uma forma de propaganda.
O problema não é buscar soluções simples. É acreditar que elas existem.
Criminalidade não nasce apenas da falta de rigor penal. Economia não se transforma simplesmente reduzindo impostos. Educação não melhora apenas trocando professores ou currículos. Corrupção não desaparece porque um governante promete “acabar com tudo”.
Sociedades são sistemas complexos.
Uma política pública produz efeitos desejados, efeitos colaterais, custos, resistências e consequências não previstas. É justamente por isso que a discussão séria exige dados, comparação, método e conhecimento histórico.
Mas tudo isso é menos sedutor que um discurso de trinta segundos.
O eleitor desatento quer o milagre.
O político oportunista sabe disso.
E entre os dois estabelece-se uma relação perigosa: um vende aquilo que o outro deseja acreditar.
Talvez seja necessário, portanto, elevar a exigência intelectual do eleitorado.
Não é preciso que todos sejam especialistas em economia, segurança pública ou ciência política. Mas é preciso recuperar uma virtude que as redes sociais parecem ter tornado rara: a capacidade de questionar sem abandonar a evidência.
Questionar não significa negar fatos comprovados. Significa perguntar de onde vem uma informação, quais evidências a sustentam, em que contexto ela se aplica e quais são seus limites. Pensamento crítico não é transformar tudo em dúvida; é saber distinguir uma hipótese de um fato, uma opinião de uma evidência e uma promessa de uma realidade.
Antes de compartilhar, perguntar.
Antes de admirar, comparar.
Antes de repetir, verificar.
Antes de acreditar, perguntar:
Como isso será feito?
De onde vêm as evidências de que funciona?
Se uma proposta não sobrevive a essas duas perguntas, talvez não seja uma solução.
Talvez seja apenas uma promessa bem embalada.
E uma democracia que transforma promessas em verdades sem submetê-las ao pensamento crítico deixa de escolher racionalmente seus governantes. Passa apenas a escolher, de quatro em quatro anos, qual vendedor de milagres terá a oportunidade de administrar a realidade.


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