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Depois que as Câmeras se Apagam

22 de set.
3 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Naquela noite, a escola estava feliz.

Fazia tempo que não ouvia falar tanto dela.

No rádio, durante a manhã, escutara promessas de valorização, investimentos, qualidade, inovação. À noite, diante da televisão, ouviu novamente seu nome. Educação seria prioridade. Os professores seriam valorizados. O futuro começaria pela escola.

Ela gostou de ouvir aquilo.

Depois de tantos anos, quem não gostaria?

Por alguns instantes, deixou-se imaginar diferente. Salas mais cuidadas, professores respeitados, alunos recebendo mais oportunidades. Talvez, finalmente, alguém tivesse compreendido que educação não se constrói apenas com discursos e que uma escola não pode ser transformada de quatro em quatro anos, conforme mudam os governos.

Mas a escola tinha memória.

E sua memória não era curta.

Enquanto ouvia aquelas promessas, lembrou de outras eleições. De outros rostos, outros discursos, outras palavras bonitas. Também já tinham dito que ela seria prioridade. Também já tinham prometido cuidar dos professores, melhorar sua estrutura, garantir qualidade.

Ela acreditara.

Depois, esperara.

E continuara esperando.

Não que alguém tivesse fechado suas portas. Pelo contrário. Ela permanecera aberta todos os dias. Recebendo crianças, adolescentes, professores, famílias. Funcionando, mesmo quando faltava alguma coisa.

A escola aprendera a sobreviver.

Quando um aluno chegava carregando problemas de casa, havia um professor para escutá-lo. Quando a família não conseguia mais responder, a escola tentava responder. Quando a violência, a pobreza, a exclusão e tantos outros problemas atravessavam seus portões, alguém esperava que ela soubesse o que fazer.

E ela tentava.

Talvez esse fosse o seu maior mérito e, ao mesmo tempo, sua maior condenação: quase sempre encontrava forças para continuar.

Foi olhando para os professores que percebeu o tamanho dessa contradição.

Eles chegavam cansados e entravam em sala assim mesmo. Preparavam aulas, corrigiam trabalhos, ouviam histórias, acolhiam angústias e tentavam despertar esperança em quem muitas vezes já chegava sem acreditar em si mesmo.

E ainda havia quem perguntasse por que a escola não conseguia fazer mais.

Poucos perguntavam do que ela precisava para fazer melhor.

Poucos perguntavam do que precisava o professor.

A escola sabia que havia quem o transformasse em culpado e quem colocasse sobre seus ombros a responsabilidade de resolver problemas que pertenciam à sociedade inteira.

E foi então que, naquela noite, uma velha compreensão voltou à sua memória.

No fundo, ela sabia que havia uma diferença enorme entre ser lembrada e ser cuidada.

Ser lembrada é aparecer no discurso.

Ser cuidada é aparecer no orçamento.

Ser lembrada é receber aplausos.

Ser cuidada é garantir condições para trabalhar.

Ser lembrada é ouvir que o professor é fundamental.

Ser cuidada é reconhecer, na prática, que ele não pode ser tratado como custo.

Ser lembrada é prometer uma escola melhor.

Ser cuidada é construir essa escola quando as câmeras vão embora.

A escola sabia disso.

Aprendera com o tempo.

Aprendera que há uma distância enorme entre aquilo que se diz diante de um microfone e aquilo que se faz quando o microfone é desligado.

Talvez por isso sua alegria daquela noite tivesse alguma coisa de tristeza.

Ela queria acreditar.

Ainda queria.

Mas já não conseguia acreditar apenas nas palavras.

Precisava ver o que aconteceria depois.

Porque a escola não precisava de salvadores. Tampouco precisava de inimigos. Precisava de compromisso. De promessas que atravessassem a porta da escola e se transformassem em realidade. De decisões que sobrevivessem ao dia da eleição. De professores respeitados, com salários dignos, condições reais para ensinar, planejamento e investimento.

Precisava deixar de ser lembrada apenas quando alguém precisava falar de futuro.

Naquela noite, desligou a televisão e ficou alguns segundos em silêncio.

Olhou para as salas vazias.

Pensou nos alunos que voltariam pela manhã.

Pensou nos professores que novamente atravessariam seus corredores.

E, apesar de tudo, sorriu.

Não era o sorriso ingênuo de quem acredita em qualquer promessa.

Era o sorriso de quem já sofreu algumas decepções, mas ainda não perdeu a esperança.

Amanhã, abriria novamente suas portas.

Como sempre.

Talvez esse seja o paradoxo mais doloroso da escola pública: ela continua fazendo sua parte mesmo quando tantos deixam de fazer a deles.

E talvez seja justamente por isso que seu abandono seja tão difícil de perceber.

Ela não fecha.

Não desaparece.

Não grita.

Ela permanece.

E, enquanto permanece, segue ensinando, acolhendo e tentando formar aqueles que um dia decidirão os rumos da sociedade.

A escola ainda acredita.

Mas agora tem memória.

E sabe que uma sociedade não demonstra o quanto valoriza sua escola pelo que promete diante das câmeras.

Demonstra pelo que faz quando ninguém está olhando.

Porque quando uma sociedade deixa de cuidar da escola, não abandona apenas a educação.

Começa, silenciosamente, a abandonar o próprio futuro.

E talvez, sem perceber, a própria democracia.

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